domingo, 26 de janeiro de 2014

Mais Sal para o Mar

Andei a evitar bater mais no ceguinho, mas acho que se escrever a minha opinião, pelo menos aqui, mal não faz.
Nem sei se alguém vê isto.

Morreram 6 pessoas e nada as trará de volta. Pode-se especular sobre o que verdadeiramente aconteceu, apontar o dedo a este e àquele. Podemos olhar para os factos e perceber que tudo poderia ter sido evitado. Podemos tocar no tema das praxes, mas devemos - acima de tudo - tocar no tema, livre arbítrio e dois dedos de testa.

Estivesse a ser realizada uma praxe ou não, tenha-se assinado um termo de responsabilidade ou não, a menos que tivessem em mente um suicídio colectivo como desfecho do ritual, poderiam ter sempre dito que iam ali sentar-se na areia, o mais distante possível do mar.

A sede de se querer integrar um grupo restrito, de se ser aceite pelos mais velhos e com pseudo-poder, é um coisa lixada. E aqui enquanto psicóloga, vejo a fragilidade daqueles miúdos que lutavam por essa aceitação como se viessem a fazer parte das Nações Unidas e fosse o destino deles acabar com a fome no mundo. No fundo, só iam ganhar um estatuto que só teria validade, às escondidas e dentro do recinto escolar. Estatuto esse, que só serve para fazer aos outros o que lhes fizeram a eles. Assim uma espécie de passagem, de geração em geração, de todo o mal que reside na vivência académica pessoal.

Por isso, fosse ou não uma praxe, o rapaz que não morreu, digamos antes assim, sabia que ia causar uma situação de risco à integridade física dos colegas. Os colegas queriam muito. Pecou por estar a tentar esconder os factos o máximo de tempo possível. Aqui já entramos no campo da obstrução à justiça e de omissão de provas (quando limparam a casa). A verdade é que se era um contra seis, ele não os agarrou à força para entrar no mar. Ser acusado de homicídio não qualificado parece-me excessivo. Mas eu não estava lá.

A amnésia selectiva existe. Aqui parece só conveniente, mas ela existe, acontece precisamente em situações traumáticas como esta, ou até mais simples. O rapaz que não morreu, vai ficar traumatizado até ao fim dos seus dias. Inicialmente nas redes sociais  e na comunicação social, foi dito que o rapaz foi encontrado seco e isso gerou sem dúvida, uma onda de fúria e raiva, querendo cruxificá-lo. Agora já se diz que o Inem o encontrou em pré-afogamento e hipotermia. As coisas mudam, assim? Já se tem mais pena dele por isso? Porque sofreu na pele quase o mesmo destino que os amigos?

Antes de se darem as noticias não se deve especular, a opinião publica é moldada com uma pinta incrivel, basta mudar um facto.

Eu vivo perto do Meco. Era a minha praia de infância. Toda a gente daqui, sabe que o Meco não é para brincadeiras. O mar é traiçoeiro demais, dois passos dentro de água e estamos sem pé. As correntes mudam num ápice, as ondas são demasiado grandes por causa da profundidade do mar. Quando a maré está baixa, temos de descer a pique o areal para chegar à água, voltar a subir é obra, a areia vai desaparecendo debaixo dos nossos pés e apesar de estarmos fora de água, é aflitivo na mesma.
Este Inverno o areal simplesmente desapareceu com as vagas, e o areal é extenso.

Era uma noite de inverno, alerta vermelho para a costa, noite de Lua cheia, o que torna o mar duplamente agitado. Mesmo que não soubessem da fama do Meco, quando lá chegassem iam poder ver com os próprios olhos. Não era razão suficiente para se porem a milhas?

Quando ouvi a primeira versão, de que estavam sentados à beira mar e foram levados por uma onda, não me fez qualquer sentido. Conhecendo aquele mar, que uma vez também me quis levar, questionei-me quem é que se sentaria à beira mar, numa noite gélida. A areia molhada, os salpicos do mar no corpo, a impossibilidade de ouvirmos quem conversa connosco, pelo barulho ensurdecedor das ondas. O telemóvel ter ficado seco e seis pessoas levadas pela mesma onda.
Não que fosse impossível terem sido todos arrastados na mesma onda, mas para isso teriam de estar já dentro do mar. Ou apanhados de surpresa porque não estavam de frente para ele.
"Nunca dês as costas ao mar", sempre ouvi dizer.

Talvez nunca saibamos o que aconteceu, ao certo. Podia ter sido apenas um acidente estúpido, mas infelizmente, acredito que já se tornou uma embrulhada muito maior.



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